sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Povoar não só a terra, mas sobretudo o Céu


Em primeiro lugar, é necessário compreendermos que não estamos em tempos tranqüilos, de paz, como se o mundo vivesse sob o jugo da Lei de DEUS. Não. Os estados se deixaram levar pelo espírito moderno, subjetivista, onde o egoísmo é o centro, fundamento e princípio de toda ação humana, seja na lei, na ética, na moral, ou mesmo dentro dos lares.

Nesta postagem não pretendo me estender no diagnóstico da sociedade hodierna, visto que os trágicos problemas que assolam as famílias são evidentes para qualquer coração que busca a santidade; o pecado é lei, enquanto a santidade, como já em vigor em alguns lugares, é crime.

Ora, a Igreja de Nosso Senhor, a única, é composta por homens que provém desta sociedade enferma, que às vezes parece como que em 'fase terminal'. Contudo, além da Igreja ser divina, o que já seria o suficiente para trazer paz aos ânimos perturbados, as 'doenças', como mal de pena que são, nos comunicam uma boa notícia: falta algo, o bem não se encontra plenamente aí. Esta é a função do mal de pena, diferentemente do mal de culpa, que é em si mesmo abominável.

O mal de pena, criado por DEUS, como nos ensina os Doutores Agostinho e Tomás, é um presente para nós; pois do contrário, não poderíamos jamais encontrar a cura se não soubéssemos que estamos enfermos. Grande é o bem que o mal de pena nos concede. Imagine assim, se não tivéssemos dores no corpo, este seria mutilado já na primeira semana de vida, pois não haveria nada que pudesse remetê-lo ao bem perdido, neste caso a saúde. Algo análogo ocorre com a alma, e mesmo com a Santa Igreja de DEUS, Santa e Católica; ocorre que o Senhor quer purificar-nos todos, pois sem esta purificação, perecemos. Bendita dor! Bendita cruz! Bendito sofrer!

Mas, o mal de pena não consegue chegar a ato, ou seja ao fim de seu movimento, se nossa vontade não estiver submetida aos desígnios de DEUS. Portanto, a dor e a angústia, boas em si mesmas para nos advertir a ausência de bem, tornam-se más quando não sabemos lidar com elas, ou no dizer do Doutor Angélico, 'quando não são ordenadas pela razão'.

Além da concupiscência da carne, que tanto assola os pequeninos de DEUS, temos o mundo e os espíritos que estão sob seu jugo, os anjos decaídos. Entendamos um pouco mais como é este que este espírito imundo age nos eleitos.

Ora, este espírito moderno é um espírito de retrocesso e apostasia. É o espírito da mulher de Lot, que se vira para trás (Gn XIX, 26), o dos murmuradores de Israel que, tendo o maná, tinham saudade das cebolas do Egito (Num XI). E não seria exagero dizer que a vida da sociedade atual, germinada no século XIV, quando a Cristandade acaba de alcançar o auge no século XIII, é semelhante a do cão que volta a seu vômito (Pr XXVI, 11; II Pd 2). Desta maneira, nos parece esclarecido que a modernidade não é propriamente um processo de decadência, se entendermos por decadência o processo de envelhecimento natural de qualquer organismo corruptível. E este espírito moderno, que mostra sua força com muita clareza no século XIV, como dito acima, é uma reação da carne às exigências da santidade, pois ninguém pode morrer de velhice na plenitude da idade.

Escuso-me de citar aqui várias passagens do livro de cabeceira de santos e de papas, A Imitação de CRISTO, a este respeito, por serem conhecidos de muitos dos meus leitores. Penso que todos compreendemos esta rebelião da carne às exigências da santidade que o DEUS Revelador nos trouxe plenamente em CRISTO JESUS. Mas, permitam-me citar um trecho dos sermões de Santo Antônio de Lisboa:


Quando se completaram os dias do Pentecostes, estavam todos os discípulos juntos no mesmo lugar etc.Diz Ezequiel: O espírito de vida estava nas rodas. As rodas volúveis foram os Apóstolos, que levaram o FILHO de DEUS por todo o mundo. Estas rodas, como o mesmo profeta ajunta, tinham aspecto como duma visão de pedra de crisólito. O crisólito refulge como o ouro. E daqui é que lhe vem o nome, pois chrysós, em grego, quer dizer ouro. Esta pedra parece irradiar centelhas de fogo e afugenta todo o gênero de serpentes. Simboliza os Apóstolos, que irradiaram com o ouro da graça semptiforme as centelhas da pregação, incendiando os outros. Com elas afugentaram todo gênero de demônios. Nestas rodas, como se lê no mesmo profeta, havia uma grandeza, uma altura e uma aspecto horrível. De fato, nos Apóstolos houve grandeza na retidão da doutrina, altura na elevação da superna promessa, mas aspecto horrível nas ameaças e terrores do suplício vindouro.

Daí a fala do penitente nos Cânticos: A minha alma ficou toda perturbada por causa dos carros de Aminadab. Aminadab interpreta-se ‘espontâneo’, e significa JESUS CRISTO, que espontaneamente se ofereceu por nós na cruz. Os seus carros foram os Apóstolos. Deles refere Habacuc: Os teus carros são a salvação, isto é, por sua causa dás a salvação; por sua causa, ou seja, pela pregação de convite à penitência, a minha alma, diz o penitente, ficou perturbada. Donde Habacuc: Enviaste para o mar os teus cavalos, que perturbaram as muitas águas; eu ouvi e as minhas entranhas comoveram-se. O Senhor enviou para o mar os seus cavalos, isto é, enviou ao mundo os seus Apóstolos, que perturbaram as muitas águas, isto é, muitos povos, com a sua pregação penitencial. Eu ouvi a pregação deles, diz o penitente, e as minhas entranhas, isto é, a minha carnalidade, comoveram-se”.

Alguns teólogos, conscientes de que o organismo social é regido por leis análogas às do indivíduo, tanto na ordem natural como na da graça, comparam a Cristandade do final do século XIII como a alma que sai da [i]quinta morada[/i], para usar a linguagem da Doutora de Ávila e da do Doutor da Noite Escura (Cf. Pe. María-Eugenio del Niño Jesús): já passou a noite dos sentidos, e a alma se encontra purificada, iluminada pela sabedoria divina e gozando de grande paz; mas DEUS a chama a uma altíssima união, e ainda resta nela a radical inépcia e impureza do homem velho. A altura da vocação divina à santidade e a profundidade das raízes do mal na natureza humana são as causas do drama da noite do espírito que leva à união transformante da sétima morada. O espírito moderno é, assim, o espírito que combate os santos na terrível noite purificadora; que se arraiga nos defeitos mais espirituais da carne e do mundo: a prudência carnal diante dos exageros da santidade, uma falsa misericórdia diante dos rigores da justiça divina, o horror diante da exigência do martírio (fortaleza), a nostalgia das alegrias lícitas (temperança); mas que consiste sobretudo no poder que o maligno recebe para peneirar como trigo os eleitos: "Disse, pois o Senhor a Satanás: Eis que ele está em tua mão; conserva, porém, a sua vida". (Jó II, 6).

A diferença dos organismos, ditos acima, é a seguinte: a santidade pode dar-se em poucos de modo extraordinário, mas não em toda a sociedade, porque o batismo não elimina as feridas do pecado original, e porque a natureza do homem tende na maioria ao mal; por isso os santos não reinarão senão depois da ressurreição geral, e, enquanto durar esta noite, não se deve esperar da ordem política senão que sirva de instrumento a Satanás¹. Esta última luta da carne contra o espírito purificador da alma que chega à santidade traduz-se na ordem social numa rebelião dos Estados contra a Igreja:
 
1° DEUS, sim, CRISTO, sim, Igreja não;
2° DEUS, sim, CRISTO, não, Igreja, não;
3° DEUS, não, CRISTO, não, Igreja, não;
 
Traduzindo:
 
1° O grito diabólico da Alemanha luterana.
2° O grito diabólico da França iluminista.
3° O grito diabólico da Rússia comunista.

Daí o papel fundamental das Aparições do Santo Anjo e da Virgem em Fátima: "(...) a Rússia espalhará seus erros pelo mundo (...)". As súplicas do Santo Anjo e da Virgem parecem urgir sempre mais: penitência, penitência, penitência; muitas almas vão para o inferno por não ter quem se ofereça por elas. Eis o que considero como a maior colaboração que podemos oferecer para a reforma da Igreja, sem a qual, penso, não há como ter frutos qualquer atividade apostólica: sermos vítimas de amor em reparação pelos ultrajes cometidos contra o Senhor e contra o Imaculado Coração de MARIA.

A vida interior é mais importante que a vida intelectual, a vida comunitária, a vida familiar etc. Sem a vida interior não teremos reforma alguma, se nem de nós mesmos, que dirá da Igreja, que passa dias difíceis (muito antes destes escândalos sexuais virem à mídia).

Voltemos para o diagnóstico que acusa a ação deste espírito que rege a modernidade. Para entregá-la a Satanás, DEUS espera que alma amadureça, sobretudo quanto à sabedoria e à caridade, porque o demônio combate principalmente com o egoísmo e a mentira. E os teólogos tradicionais afirmam ser este o motivo pelo qual Nosso Senhor esperou sua Igreja contar com a sabedoria de São Domingos e a caridade de São Francisco para permitir que se abrissem as portas do inferno: "Abriu o poço do abismo, e subiu uma fumaça do poço" (Ap IX, 2). Essa fumaça de Satanás que "escureceu o sol e o ar" (ibid.), ou seja, a fé e a razão, é um sutil sistema de sofismas que tem como primeiro princípio de egoísmo ementira - princípio de ordem prática - a exigência de liberdade: "O fim do diabo é separar de DEUS a criatura racional; razão por que desde o princípio ele tentou separar o homem da obediência ao divino preceito. E a mesma aversão a DEUS tem razão de fim quanto é apetecida sob pretexto de liberdade, segundo o que se lê em Jeremias (II, 20): 'Tu, desde o princípio, quebrastes o meu jugo, rompeste os meus laços, e dissestes: Não servirei'. Quando, pois, alguns são conduzidos a esse fim pecando, caem sob o governo e direção do diabo" (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q. 8, a. 7). E estes teólogos concluem dizendo ser muito acertado dar ao mal chamado espírito "moderno" o nome de "liberalismo".

E mais claro ainda percebe-se em que mal se encontra a sociedade liberal e suas apetências quando, por exemplo, vemos suas produções em massa de produtos promíscuos, pérfidos, sujos e com o odioso fedor de enxofre que trazem aos que nelas se encerram drasticamente. E toda analogia destes gritos liberais com o de Lúcifer, Adão, Caim (...), Judas, Lutero, e todos os que se submetem a este esquadrão, longe de parecer um devaneio pueril, é a mais pura claridade diante destes problemas tão difíceis de resolver, ou mesmo impossível, somente sob a luz da razão. O que não é difícil de constatar é a natureza e causa das atrocidades, guerras e crimes impensáveis que se surgiram depois do ‘cogito ego sum’ cartesiano, do agnosticismo kantiano, do niilismo nietizchiano, do materialismo marxista e tantos sofismas que se ergueram da negação, seja parcial ou total, da metafísica.

A urgência do pedido de Fátima, ou seja, a reparação pelos pecadores, onde somos os primeiros, para a glória de DEUS e por meio de MARIA Santíssima, é para nós a única solução dos problemas, sejam os de nossos lares, sejam os de nossa nação, sejam os da Igreja de Nosso Senhor.

Infelizmente, a mentalidade liberal incentivou as almas a uma pastoral, uma vida apostólica, sem estarem sob o julgo dos dogmas cristãos, sem estarem solidificados na vida espiritual, a vida da alma. Entregues aos apetites da carne, não mais submetidas à razão, os cristãos mais desejosos de viver a santidade, se viram diante de limites intransponíveis, caindo muitas vezes, e alguns, para tristeza de qualquer fiel católico, jamais levantaram, apostatando a fé, caindo em heresias, e perdendo assim o maior tesouro de suas vidas: JESUS Sacramentado, que em toda Santa Missa quer ardorosamente o nosso coração, mesmo sendo um presépio inóspito, muito pior que o dos animais, como que Seu Céu, onde ELE possa Reinar e dar assim a este coração, proporcionalmente, claro, a mesma alegria que tem na TRINDADE Santíssima.

Muitos católicos, levados por este espírito liberal subjetivista, ainda que ardentes da glória extrínseca de Nosso Senhor, venderam a glória do Senhor pela 'liberdade' do homem sem DEUS, 'livrando-o' de dogmas, condenações e definições, estas que eram a máxima manifestação da misericórdia de DEUS, no dizer de São Paulo: que pai não corrige e mesmo açoita seu filho? Mas, cegos, os cristãos assim foram navegar em direção as trevas por estarem ofuscados pela luz da verdade que exige daqueles que a amam, a renúncia e o último lugar, a humildade de reconhecer que suas obras são feitas em DEUS, e não por usas próprias forças: "E a causa desta condenação é: a luz veio ao Mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; pois eram más as suas obras. Porquanto todo aquele, que pratica o mal, aborrece a luz, e não se chega para a luz, para que não sejam argüidas as suas obras; mas aquele, que (obra) pratica a verdade, chega-se para a luz, para que suas obras sejam manifestas, porque são feitas em DEUS" Jo III, 19-21.

Já me alonguei demais. E o que quero afirmar veementemente não é outra coisa senão assumir a nossa vocação de povoar não só a terra, mas principalmente o céu, reparando e oferecendo-nos como vítimas de amor.

Imaculado Coração de MARIA Santíssima, sede nossa salvação!
Salve MARIA!

¹Certamente houve muitas comunidades santas, como a dos primeiros cristãos, houve não poucos reis santos; entretanto, nunca houve nem pode haver uma sociedade política completa, com autoridades e leis, em que a santidade seja o comum. E, como só a virtude heróica pode resistir a Satanás solto, poderão resistir a ele pessoas, famílias e grupos, mas - se não se abreviam os tempos - os Estados terminam por cair nas mãos dele. Os raros justos que chegam a chefes dos Estados modernos terminam mártires, como García Moreno.

Nenhum comentário:

Postar um comentário