segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Sobre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus





Quando na Sagrada Escritura se fala do coração, não se alude a um sentimento passageiro, que produz emoção ou lágrimas. Fala-se do coração para indicar a pessoa que, como nos manifestou o próprio Jesus, se orienta toda ela - alma e corpo - para o que considera o seu bem: Porque onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração.

Por isso, quando falamos do Coração de Jesus, pomos de manifesto a certeza do amor de Deus e a verdade da sua entrega por nós. Recomendar a devoção a esse Sagrado Coração equivale a recomendar que nos orientemos integralmente - com tudo o que somos: alma, sentimentos, pensamentos, palavras e ações, trabalhos e alegrias - para Jesus todo.

Nisto se traduz a verdadeira devoção ao Coração de Jesus: em conhecer a Deus e nos conhecermos a nós mesmos, e em olhar para Jesus e recorrer a Jesus, que nos anima, nos ensina, nos guia. A única superficialidade que pode existir nessa devoção é a do homem que, não sendo integralmente humano, não consegue aperceber-se da realidade de um Deus feito carne.

Jesus na Cruz, com o coração trespassado de Amor pelos homens, é uma resposta eloquente - as palavras são desnecessárias - à pergunta sobre o valor das coisas e das pessoas. Os homens, a sua vida e a sua felicidade, valem tanto que o próprio Filho de Deus se entrega para os redimir, para os purificar, para os elevar. Quem não amará o seu Coração tão ferido?, perguntava uma alma contemplativa, ao dar-se conta disso. E continuava a perguntar: Quem não retribuirá amor com amor? Quem não abraçará um Coração tão puro? Nós, que somos de carne, pagaremos amor com amor, abraçaremos o nosso Ferido, Aquele a quem os ímpios atravessaram as mãos e os pés, o lado e o Coração. Peçamos que se digne prender o nosso coração com o vínculo do seu amor e feri-lo com uma lança, pois é ainda duro e impenitente.

S. Josemaria Escrivá

Restaurar e Impregnar tudo de Cristo


 S. Josemaria Escrivá

Instaurare omnia in Christo, é o lema que São Paulo dá aos cristãos de Éfeso: impregnar do espírito de Jesus o mundo inteiro, colocar Cristo no âmago de todas as coisas. Si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum, quando for levantado ao alto sobre a terra, tudo atrairei a mim. Cristo, com a sua encarnação, com a sua vida de trabalho em Nazaré, com a sua pregação e milagres pelas terras da Judéia e da Galiléia, com a sua morte na Cruz, com a sua Ressurreição, é o centro da Criação, Primogênito e Senhor de toda a criatura.

A nossa missão de cristãos é proclamar essa realeza de Cristo, anunciá-la com a nossa palavra e as nossas obras. O Senhor quer os seus em todas as encruzilhadas da terra. Chama alguns ao deserto, para que se desliguem das vicissitudes da sociedade humana e, com o seu testemunho, recordem aos demais homens que Deus existe. Confia a outros o ministério sacerdotal. Mas quer a grande maioria no meio do mundo, nas ocupações terrenas. Estes cristãos devem, pois, levar Cristo a todos os ambientes em que se desenvolve o trabalho humano: à fábrica, ao laboratório, ao cultivo da terra, à oficina do artesão, às ruas das grandes cidades e aos caminhos de montanha.

Gosto de recordar a este propósito o episódio da conversa de Cristo com os discípulos de Emaús. JEsus caminha ao lado daqueles dois homens que perderam quase toda a esperança, a tal ponto que a vida começa a parecer-lhes sem sentido. Compreende a sua dor, penetra em seus corações, comunica-lhes um pouco da vida que nEle habita. Quando, ao chegarem à aldeia, Jesus faz menção de continuar viagem, os dois discípulos retêm-no e quase o forçam a ficar com eles. Reconhecem-no depois, ao partir o pão; o Senhor, exclamam, esteve conosco. Então disseram um para o outro: Não é verdade que sentíamos o coração abrasar-se dentro de nós, enquanto nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? Cada cristão deve tornar Cristo presente entre os homens; deve viver de tal modo que à sua volta se perceba o bonus odor Christi, o bom odor de Cristo; deve agir de tal modo que através das ações do discípulo, se possa descobrir o rosto do Mestre.

S. Josemaria Escrivá, É Cristo que Passa, Homilia pronunciada em 26 de março de 1967, Domingo da Ressurreição

S. Josemaria Escrivá e a necessidade de uma conversão real


Hoje a Santa Igreja celebra a memória de S. Josemaria Escrivá, a quem bem poderíamos chamar de "o santo do cotidiano". Nesta ocasião, eu poderia simplesmente fazer uma transcrição de algum dos seus escritos e, na verdade, nada me impede de levar a termo esta idéia. Porém, neste post em particular, quero falar, por mim mesmo, de um aspecto fundamental da vida cristã e no qual S. Josemaria poderá apoiar-me.

Como se sabe, todos nós somos chamados à santidade, pois é vontade de Deus que todos se salvem. Para que a salvação possa se dar, são necessárias absolutamente duas coisas: uma vida que se disponha ao caminho proposto por Nosso Senhor e, em seguida, o auxílio objetivo da Graça. Uma reta compreensão deste duplo aspecto falta a muita gente, e eu gostaria aqui de tentar elucidar um pouco a questão.

De um lado, há os que lutam contra uma visão que chamam de "sacramentalista" e que sugere um tipo de cristianismo mecânico, sem envolvimento interior e no qual se supõe dever o católico somente cumprir suas obrigações cultuais, quais sejam a frequência aos Sacramentos, o pagamento do Dízimo, etc., sem que, porém, os demais aspectos da sua vida sejam envolvidos pela religião. Deste modo, um sujeito poderia justificar a sua consciência entendendo que, por ter ido à igreja ou ter feito certas orações, já não há o que se lhe deva exigir. De fato, é um erro pois, a despeito da aparência, um tal sujeito torna-se impermeável à ação divina.

Há, porém, um outro problema, talvez mais atrativo, mas também mais sutil porque, embora seja no fundo uma das tantas máscaras do orgulho humano, costuma se transvestir de humildade e de cristianismo verdadeiro. Consiste na equivocada conclusão de que o cristianismo, para se isentar das meras exterioridades, deverá ser tão somente um processo de auto-persuasão, de auto-conversão, de cultivo de bons sentimentos, de disposição para a ação humanista, social; de tentativa de modificação efetiva do mundo por meio do envolvimento político, reduzindo toda a religião a um instrumento ideológico, a um grande sindicato onde deveriam ser expostas e ensinadas as idéias mestras para a libertação dos homens, entendidos aqui na sua materialidade, o que dá certa aparência de realismo a este tipo de discurso.

No entanto, uma religião onde o homem possua, por si mesmo, as idéias e a força para a mudança necessária, não é religião, mas caminho de auto-afirmação, de auto-suficiência. Uma religião, além disto, que reduza o ser humano à sua vida terrestre, amputa-lhe o que de mais essencial ele possui e, sob a máscara de uma solicitude devotada, distrai-o de sua verdadeira felicidade e objetivo. Se Deus não é necessário para a conversão humana, não há por que se aderir a uma religião. Se a importância de Deus na vida humana se restringe ao campo motivacional, poderemos trocá-lo por Buda, Gandhi, e tantos outros personagens que, inclusive, parecem incorporar melhor do que Jesus os ideais modernos.

Não. Nada disso é catolicismo. No primeiro problema, temos uma fé caricaturada em que os sujeitos apenas encenam e anestesiam a consciência, enganando-se até o fim do mundo, onde haverão de contemplar, aturdidos, a fatuidade da própria vida. No segundo erro, temos uma fé reduzida à materialidade, e a auto-suficiência humana se disfarçando de devoção e amor ao próximo. Temos a exclusão prática de Deus e a negação da necessidade da vida da Graça, com a consequente naturalização e relativização dos preceitos religiosos e da doutrina católica. Cai-se no subjetivismo e no relativismo e o homem erige-se como norma última do bem. É o antropoteísmo.

S. Josemaria Escrivá, porém, tem outra proposta: a de uma conversão total e de unidade de vida. Primeiro, é preciso reconhecer a doença do egoísmo da qual todos sofremos enquanto labutamos nesta terra, com exceção de alguns raros santos que, ainda nesta vida, alcançam alturas vertiginosas de santidade. Quanto a nós, é preciso convencer-nos desta ruindade que todos carregamos no íntimo da alma e que tende a fazer das nossas melhores intenções e atitudes apenas uma extensão de si mesma. A consequência do pecado original foi a entronização da soberba em nós, que falseia o nosso julgamento, corrompe as nossas vontades e instrumentaliza as nossas ações. Uma vez que contemplamos tal verdade, deveremos reconhecer que, sozinhos, não temos como dar conta disso. Se fazemos mortificação por nosso próprio esforço, confiados no nosso próprio engenho, daqui a pouco estaremos, ou esmagados pela constatação absoluta da nossa fraqueza, ou perdidos na contemplação da nossa suposta e falsa grandeza. Se queremos fazer boas ações, a soberba tornará tudo quanto fizermos somente uma tentativa de adquirir aplausos e admirações. Se queremos divulgar o Evangelho, o nosso orgulho utilizará a ocasião para se auto-afirmar. E desse modo, tudo quanto fizermos será igual a nada. Já dizia S. Paulo que, sem a caridade, tudo é só barulho. A caridade é o auxílio de Deus na nossa alma para que as nossas intenções possam ser puras e para que as nossas ações sejam sobrenaturalizadas e verdadeiras.

Uma vez que reconhecemos a necessidade absoluta que temos do auxílio divino, devemos, então, entender de que modo ele nos poderá ser dado. Ora, é pelos Sacramentos da Igreja. Daí que a religião não é, de modo nenhum, dispensável. De modo nenhum! É nela que obteremos a vida da Graça e aprenderemos a verdade não somente sobre Deus, mas sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o mundo. Sem saber de tudo isto, não poderemos efetivamente ajudar ninguém, pois partiremos de pressupostos errados.

Uma religião, ao invés, que pretendesse a mera observância exterior dos compromissos religiosos e se restringisse geograficamente ao interior dos templos, também em nada se distinguiria da dos fariseus, e sobre isto Jesus nos diz: "se a vossa justiça não for maior do que a deles, não entrareis no Reino". Em verdade, o cristianismo deve de tal modo envolver a vida humana, que toda ela se transubstancie, isto é, se transforme, desde o seu mais íntimo, em vida cristã, em vida de Cristo, ao ponto de podermos, um dia, dizer como São Paulo que é Ele Quem vive em nós. Já dizia um santo que um verdadeiro cristão é cristão não apenas quando reza, mas quando trabalha, estuda, brinca, come e até quando dorme. A cura a que devemos ser submetidos tem de ser completa, diria C.S. Lewis, pois o que Nosso Senhor espera de nós é, nada menos, que a perfeição. Ora, tal altura está muito acima das nossas capacidades naturais. No entanto, é preciso querê-la e buscá-la, uma vez que temos o auxílio divino.

S. Josemaria propõe justamente isto: tornar a vida inteira um contínuo suspiro de amor a Deus. Mesmo no evento mais corriqueiro, mais cotidiano, mais ordinário, é possível fazer transbordar o amor divino. E isto é tão somente a aplicação prática do que S. Paulo já havia dito: "n'Ele existimos, nos movemos e somos". Se tal é assim, ter momentos totalmente seculares na vida significa distrair-se da realidade. O cristianismo, ao invés, sendo a religião da verdade, quer, não alienar, mas efetivamente despertar os homens para a verdade. Daí a necessidade de se encarnar visceralmente um cristianismo total, contínuo, que englobe a vida em todos os seus aspectos, momentos e minúcias. Esta unidade, porém, somente pode ser dada quando os homens descobrirem que, de fato, sem Ele nada podem fazer, conclusão absolutamente necessária para que se motivem a reservar-Lhe um lugar central em torno do qual gravitarão. A religião, portanto, de nenhum modo será dispensável; antes, deverá ser a garantia da visão objetiva do mundo e a fornecedora da seiva que permitirá aos homens viverem de fato, e não, apenas, encenarem.

Que S. Josemaria Escrivá interceda por nós neste caminho, difícil, pedregoso, mas amoroso e feliz.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Cristo, razão e esperança da Igreja

Estava pensando nos cristãos da Igreja dos inícios: de fora, perseguições do Império Romano; de dentro, as divisões e as decepções com irmãos que, perseguidos, renegavam a fé...

Isto mesmo: a Igreja sempre viverá em meio a tribulações, a fracassos, a perseguições e escândalos. Nunca será na terra o que terá somente no Céu: a paz da fidelidade perene de seus filhos e do gozo eterno da Glória... Mesmo que seja verdadeiramente a Igreja de Cristo, a família de Deus, a semente do Reino que se manifestará plenamente na Glória, ela caminha neste mundo ainda sob a marca da ambiguidade, das ambiguidades... Será assim até o fim!

Os verdadeiros católicos não são católicos por causa da Igreja, mas por causa do Cristo fidelíssimo, que nos amou até a cruz e nos deu a Sua Igreja, nascida do Seu lado aberto e do Seu Espírito entregue, como Mãe e canal de Sua graça. Certamente que os escândalos, a crise de fé de tantos filhos da Igreja, o mau exemplo de quem deveria ser presença viva de Cristo – tudo isto nos entristece e pode nos trazer a tentação do desânimo; no entanto, se compreendermos bem o que é a Igreja, se tivermos os olhos e o coração fixos no Cristo, então todas essas realidades negativas em nada tirarão a nossa paz.

Precisamos – isto sim – compreender que a Igreja não existe por si mesma e não é santa por si mesma, mas tudo recebe do Cristo. Precisamos levar a sério que é Cristo quem atrai os Seus e agindo por Sua graça operosa os congrega e os mantém firmes na fé. Não somos nós, ministros sagrados, quem seguramos o povo e não somos os astros “pop stars” e interessantes, que mantêm o povo na Igreja... Tudo isto é um grosseiro e triste erro, é bobagem e presunção humana! Por que alguns ministros sagrados se sentem na obrigação de serem astros, de serem adaptáveis a tudo quanto é mundano, na ilusão de que isso atrai? É Cristo o Astro único, é Cristo Quem atrai, é Cristo a novidade, é Cristo Quem nos mantém fieis, é Cristo – e só Cristo – a alegria perene do nosso coração. Aliás é bom ter bem presente: quem entra na Igreja ou nela permanece por outro motivo que não Cristo, perde tempo e não está verdadeiramente na Igreja! A pergunta, a questão, o definitivo é e será sempre aquela pergunta: “Tu Me amas?”

Entristece-me muito – mais que qualquer escândalo – ver tantos membros do clero e tantos teólogos preocupados em ser agradáveis às pessoas, atraentes e simpáticos ao mundo, gente de “boa pinta”, interessante e simpática... Recordo de Pedro, de Paulo, de João, de Madre Teresa, de Frei Damião, da Irmã Dulce, do Padre Pio... Certamente nunca procuraram ser atraentes, mas docemente, benignamente fieis! Não somos nós quem atraímos! Não temos de ser boa gente e engraçadinhos para atrair! É Cristo Quem atrai, é Cristo o centro! A nós, basta deixar que Cristo de tal modo impregne a nossa vida que quem nos vir, veja Cristo em nós: como exigente bondade, como amor que se dá, como responsabilidade que não esconde nem omite o essencial!

Tantos pregam a secularização para atrair o povo e a mundanização da Igreja, na ilusão de se fazerem simpáticos e compreendidos... Desprezam tudo aquilo que ajuda a mostrar a identidade católica, a alegria da consagração e o gosto de ser diferente do mundo... Pensam que com isso estão aproximando as pessoas e se fazendo compreender pelo mundo atual... Pura distorção ideológica e ultrapassada! O mundo grita por sinais de Deus, por marcas do eterno, por reflexos do sagrado, por gente que não tenha medo de crer, viver e testemunhar o infinito que renova esta terra!

O que afasta o povo é uma Igreja que não dá Cristo; o que esmorece a fé são padres e religiosos ou leigos que querem ser protagonistas, ao invés de darem lugar ao Cristo, único Senhor e Astro; o que cansa as pessoas são homilias que falam de tudo, mas não falam pura e simplesmente de Cristo, de Seu amor, de Sua beleza, de Seu perdão e salvação; o que torna a Igreja sem graça é o moralismo ideológico, que confunde o Reino com sociedade socialista, que só sabe falar em questões sociais. A Igreja não existe para si, mas para um Outro! Não deve se colocar no centro, mas deixar que Cristo seja o centro! A função da Igreja, sua razão de ser é pura e simplesmente provocar o encontro das pessoas com Jesus, trazer-lhes Jesus, cheio de Espírito Santo e, assim, inundar o coração das pessoas e do mundo com o Reinado de Deus – onde está o Espírito de Cristo, aí está o Reinado do Pai que Jesus trouxe com Sua morte e ressurreição!


Nossa questão não é pensar no que atrai o povo, mas anunciar Jesus, pura e simplesmente, com toda fidelidade, simplicidade, amor e mansidão... O resto é graça, é ação do Senhor, é misericórdia de Deus...
(Dom Henrique Soares da Costa)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Perfumes do Tempo do Natal

Para os cristãos que não se contentaram com um período natalino de simples gestos exteriores costumeiros, modos simplesmente repetitivos, em nome de um difuso e confuso “espírito de natal” que ninguém sabe o que é, para quem procurou realmente celebrar de modo religioso a festividade cristã, este tempo sagrado ora findo deve deixar renovadas no coração algumas certezas.

A primeira e mais importante dessas certezas:
Há um Deus no Céu e este Deus Infinito, Incompreensível, Santo, não é teórico, frio como um teorema, distante quanto uma galáxia no extremo do universo. Nada disso!

O Deus grande, santo, misterioso, inatingível, fez-Se Emanuel, Deus-Conosco, Deus-um-de-nós, Deus humanizado! - Que coisa: Deus apequenou-Se, Deus humanizou-Se!

Isto não significa que Se tornou nosso amiguinho de farra, nosso parceiro, o cara legal, gente boa com quem podemos barganhar ou brincar! Não! Ele continua o Santo, o Misterioso, mas ao mesmo tempo próximo no Seu amor, na Sua misericórdia na Sua ternura salvífica.

Aliás, segundo as Escrituras Santas e a fé da Igreja, para isso Ele criou tudo: para nos visitar e tudo levar à Sua plenitude: “De Sua plenitude recebemos graça sobre graça!” Criou tudo para Si e tudo somente Nele encontra a plenitude do ser e do sentido! Simples assim, grave assim, urgente assim, trágico assim!

Outra certeza: Se Deus entrou no tempo do mundo, todos os nossos tempos agora são povoados pelo Senhor, todos os nossos tempos tornaram-se semente de eternidade, da Eternidade do Deus eterno!Os tempos fugazes, passageiros, de nossa existência tornaram-se grávidos de Glória, do ser imperecível, imorredouro, do próprio Deus!

Quando vivemos a vida diante Daquele que veio a nós, com Aquele que nos visitou, vindo da Virgem, tudo ganha novo sentido, tudo tem gosto de eternidade: até a dor, até as lágrimas, até a morte...

Deus está conosco; não estamos sozinhos nem na vida nem na morte! O Infinito nos circunda, o Eterno nos envolve, a Vida nos abarca, nos penetra, nos encharca com o Seu Ser divino! De repente, para quem de verdade crê que Deus é Emanuel, tudo passa a ter gosto de Eternidade, tudo se transforma em semente de Eternidade!

Um terceiro aspecto: O Senhor veio em Belém, o Senhor vem a cada dia em cada situação, em cada decisão, o Senhor virá no momento da nossa morte, o Senhor virá um Dia, no Dia Final.

A vida de todo verdadeiro crente cristão deve ser vivida como um diálogo contínuo com esse Deus próximo, Deus que vem vindo sempre; a vida do crente é sempre uma resposta aos Seus apelos. O crente verdadeiro nunca vive primeiro diante de si próprio, mas fundamentalmente diante de Deus. É a partir do Altíssimo que ele mesmo se compreende, se sente, decide, caminha... "Anda na Minha presença e sê perfeito!"

Pense que vida: uma aventura de diálogo com o Eterno, uma resposta de amor ao Amor infinito, uma parceria bendita de amizade e ternura e delicadeza com Aquele que é o Mistério Santo, Sentido, Princípio e Fim de todas as coisas.

Quarta certeza: o Emanuel que nos veio não é simplesmente o Salvador dos cristãos.
Ele é a verdade do universo, a verdade da inteira humanidade, o Salvador de todos: veio para todos, veio para o mundo e a humanidade por Ele criados.

Isto compromete todo aquele que crê: temos o dever e a missão de falar do Menino, do Salvador, a todos quantos ainda não O conheçam. A fé em Cristo nunca deve ser imposta a ninguém, mas deve ser com franqueza e coragem proposta a todos!

Os cristãos devem renunciar a toda tentação de poder e de tutela sobre a sociedade, mas nunca devem abrir mão da missão de humildemente ser sal e luz para quem desejar encontrar o Sentido da existência!

Sim, no nosso mundo descristianizado – e olhe que nunca mais a sociedade como um todo será cristã! – temos a responsabilidade de dizer ao mundo que há uma Luz, que Ela brilhou em Belém e resplandeceu de modo definitivo na Ressurreição, de modo que o mundo tem sentido, a vida tem sentido, a criação tem sentido, os sonhos e tormentos dos homens têm sentido!

Com mansa convicção o Cristo deve ser sempre proposto sem nunca ser imposto! Foi assim nos dias da carne de Jesus, deverá ser sempre assim: Ele Se propôs, nunca Se impôs! Por isso mesmo veio pequeno, pobre, criança indefesa... Por isso morreu impotente, mais pobre ainda, homem de dores, crucificado, sepultado pelo pecado e o esquecimento do mundo...

Quinta convicção: O Deus que em Jesus nos visitou e nos convidou a viver na Sua santa presença, fazendo da nossa existência um amoroso “sim”, respeitará sempre a liberdade da nossa resposta...

Os Magos acolheram o Menino; Herodes O rejeitou, Jerusalém tratou-O com solene e fria indiferença. Será sempre assim!

Nós, cristãos, muitas vezes trazemos em nós a saudade dos tempos em que existia uma sociedade nominalmente cristã, com uma cultura gerada em grande parte por uma visão cristã... Estes tempos passaram e não mais voltarão! Mas, veja bem, meu Leitor: o anúncio do Cristo que por nós nasceu não deveria nunca ser feito de modo massificado, a toda uma sociedade. Ao menos não foi assim que o Cristo pensou!

O encontro com o Senhor será sempre pessoal; a resposta ao Seu apelo de salvação será sempre pessoal. Certamente, ao acolher o anúncio feito pela Igreja, o crente entra nessa Comunidade de fé, que é ao mesmo tempo Corpo de Cristo, a nossa Mãe católica. A fé, certamente, não é privada; mas, será sempre pessoal!

Não creio na possibilidade de uma cultura cristã; nem mesmo penso que isso seja um ideal pelo qual devamos os bater! Creio em cristãos sendo pouquinho de sal e teimosas chamas luminosas na cultura plural que vai se afirmando no mundo atual.

Eis o grande desafio para a Igreja inteira e para cada cristão: crer de tal modo no Senhor, vivê-Lo com tal intensidade, testemunhá-Lo com tal coerência e inteireza de vida, que o Senhor e Seus discípulos apareçam ao mundo como luz para quem desejar sair das trevas e sal para quem quiser encontrar o sabor da vida! Foi esta a missão que o Senhor nos deu com a Sua piedosa Vinda; esta será sempre nossa missão, até o fim dos tempos!
Fiquem no nosso coração estes perfumes suaves do Santo Natal! (Dom Henrique Soares da Costa)

O mundo, as trevas, a Luz

O mundo, as trevas, a Luz

A primeira leitura da Missa de hoje é, em parte, a mesma da Noite do Natal: "O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu! Fizeste crescer a alegria e aumentaste a felicidade! Todos se regozijam em Tua presença". Irmãos, esta luz que ilumina as trevas, que dissipa as sombras da morte, que traz a felicidade, é Jesus. O texto do Evangelho que escutamos no-lo confirma: Jesus é a bendita luz de Deus que brilhou neste mundo! Ele mesmo afirmou: "Eu sou a luz do mundo! Quem Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida!" (Jo 8,12). Já escutamos tanto tais afirmações, que corremos o risco de não perceber o quanto são revolucionárias, o quanto nos comprometem, o quanto são capazes de transformar a nossa vida!

A Palavra de Deus nos ensina que o mundo é marcado pelas trevas: trevas na natureza (tais como as tragédias provocadas por impressionantes fenômenos da natureza), trevas na história (como as guerras, as injustiças, as violências e opressões), trevas no coração da humanidade e de cada um de nós. Olhemos em volta! O mundo não é bonzinho: há forças destrutivas, caóticas, desagregadoras, forças diabólicas, que destroem a alegria de viver e ameaçam devorar o sentido da nossa existência...

Hoje, tantos e tantos julgam que podem passar sem Deus, que a religião é uma bobagem e uma humilhação para o homem adulto e cheio de razões... Há tantos que zombam de Deus, do Cristo Jesus, da Igreja... O que vale no mundo atual? O que é importante? O que conta realmente? O sucesso, os bens materiais, o prazer e a curtição da vida ao máximo, sem limites, sem peias... Será que não nos damos conta ainda que vivemos num mundo novamente pagão, novamente bárbaro, novamente entregue ao seu próprio pensar tenebroso? Será que não percebemos que o que vemos e lemos e ouvimos dos meios de comunicação é a defesa de uma humanidade sem Deus e sem fé, de uma humanidade que tenha somente a si própria como deus? Será que não percebemos nas novelas e em tantos espaços da internet o quanto os valores cristãos e até mesmo aqueles genuinamente humanos são renegados, solapados clara ou veladamente? Num mundo assim, Jesus nos diz: "Eu sou a Luz!" A luz não está nas universidades, a luz não está nos famosos deste mundo, a luz não está nos que têm o poder político, econômico ou social, a luz não está nos valores ditados pela mídia! A Luz é Cristo! Só Ele nos ilumina, só Ele nos revela o sentido da existência, só Ele nos mostra o caminho por onde caminhar! Ser cristão é crer nisso, é viver disso!

Pois, esse Jesus, hoje, no Evangelho, nos convida a convertermo-nos a Ele, a segui-Lo de verdade, a colocar os passos de nossa vida no Seu caminho: "Convertei-vos! O Reino dos céus está próximo!" Eis o apelo que Jesus nos faz - far-nos-á sempre! Converter-se significa mudar totalmente o rumo de nossa existência, alicerçando-a Nele e não em nós, abraçando o Seu modo de pensar e deixando o nosso, seguindo Sua Palavra e não simplesmente a estreita medida da nossa razão, nossas ideias, nossa cabeça dura, nosso entendimento curto! Quem vai arriscar? Quem vai caminhar com Ele? Quem vai abraçar Sua Palavra, tão diferente do que o mundo quer, do que o mundo prega, do que o mundo valoriza? "Convertei-vos!" Jesus nos exorta porque sabe que também nós andamos em trevas, também nós, simplesmente entregues à nossa vontade e aos nossos pensamentos, jamais poderemos acolher o Reino dos Céus!

Não nos iludamos! Não pensemos que somos sábios, centrados e imunes! Somos, nós também, cegos, curtos de entendimento, pecadores duros e teimosos! Nosso coração é embotado por tantas paixões e por tantas cegueiras! "Convertei-vos!" Daqui a pouco, carnaval à vista, o governo brasileiro, sem nenhum compromisso com valores cristãos nenhuns, vai convidar tantos e tantos brasileiros a vestirem-se de camisinha; o Senhor pede a todos que se vistam Dele: "Revesti-vos de Cristo e não satisfareis os desejos da carne!" (Rm 13,14) Compreendem, irmãos? O mundo vai para um lado; Jesus nos convida a ir para o outro! Converter-se é pensar diferente de nós mesmos e do mundo; é andar na contramão para caminhar com Cristo! A conversão gera uma luta, uma cisão tremenda: não somente entre mim e o mundo, mas também e ainda mais entre mim e eu mesmo! Sim: entre mim do meu modo e eu do modo de Cristo, eu segundo o Evangelho! Converter-se será sempre deixar-se, como Pedro e André, Tiago e João que, "imediatamente deixaram as redes... deixaram a barca e o pai" e seguiram o Senhor!

Caríssimos, como não recordar a exortação do Apóstolo? "Não andeis como andam os pagãos, na futilidade de seus pensamentos, com entendimento entenebrecido, alienados da vida de Deus!" (Ef 4,17) Quando aceitamos esse desafio, esse convite, o sentido de nossa existência muda, porque começamos a enxergar e avaliar as coisas de um modo novo, um modo diferente: o modo de Cristo Jesus! Aí se realiza em nós a palavra da Escritura: "Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor! Andai como filhos da luz!" (Ef 5,8).


Amados em Cristo, amado de Cristo, deixar-se iluminar pelo Senhor, permitir que Ele dissipe nossas trevas, é um trabalho, um processo que dura todo o nosso caminho neste mundo. Jamais estaremos totalmente convertidos, totalmente iluminados. Na segunda leitura da Missa, São Paulo convidava os cristãos de Corinto à conversão para uma vida de união e de amor. É assim: a Igreja toda inteira e cada um de nós pessoalmente, seremos sempre chamados a essa mudança, a esse deixar que a luz de Cristo invada a nossa existência tenebrosa! Nunca esqueçais, caríssimos, porque é verdade: "Outrora, sem Cristo, éreis trevas, mas, agora, sois luz no Senhor! Andai, pois, como filhos da luz!" Seja esse o nosso trabalho, seja essa a nossa identidade, seja essa a nossa herança, seja essa a nossa recompensa! E que o Senhor nos socorra com a força da Sua graça, Ele que é fiel e bendito para sempre! Amém. ( Dom Henrique Soares da Costa)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O Poço que jorra a Vida eterna


"39Muitos samaritanos daquela cidade tinham acreditado Nele por causa da palavra da mulher que afirmava: “Ele me disse tudo o que eu fiz”. 40Assim, quando chegaram junto Dele, os samaritanos Lhe pediram que ficasse entre eles. E Ele ficou lá dois dias. 41Bem mais numerosos ainda foram os que creram por causa da própria palavra de Jesus; 42e eles diziam à mulher: “Não é somente por causa dos teus dizeres que nós cremos; nós mesmos o ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo”."

Comentando:

Aqui, as observações finais do Evangelista, cheias de significado:

Primeiro a Samaritana, que não consegue conter, guardar só para si o tesouro que encontrou, a alegria que experimentou: vai, exultante, partilhar com seus conterrâneos! Repito o que já afirmei anteriormente: quem encontra Jesus de verdade não consegue deixar de falar Dele: “Não podemos nós deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4,20). Evangelizar não é anunciar ideias, não é fazer promoção social, não é fazer pesquisa sobre as condições de vida de uma comunidade, não é fazer educação política, social ou ecológica...
Evangelizar é anunciar o Jesus que se descobriu e experimentou como Senhor e Salvador, é comunicar uma alegria, uma certeza, um entusiasmo... É isto que comove, que contagia, que convence e transforma a vida das pessoas e do mundo! O resto - quando não é precedido deste essencial - é moralismo chato, enfadonho e insuportável... Disso temos experimentado muito na vida da Igreja nas últimas décadas!
Por isso mesmo, ser cristão deixa de ser uma alegria para ser um peso chato e sufocante!

Segundo ponto: os que creram inicialmente na mulher não ficam numa fé superficial: pedem que Jesus fique com eles e procuram conhecê-Lo, conviver com Ele, escutá-lo!
Este processo de crescer no conhecimento amoroso de Cristo, numa intimidade saborosa e pessoal com Ele, nunca deve ter fim para o verdadeiro cristão, para o autêntico discípulo: quem conhece Jesus deseja sempre mais conhecê-Lo; quem O ama verdadeiramente desejará sempre amá-Lo mais, porque, como dizia Santa Teresa d’Ávila, “amor atrai amor”! Não basta o querigma, o primeiro anúncio; é necessária a catequese, o fazer sempre ecoar de novo, aprofundando, o primeiro anúncio recebido...
Por isso os samaritanos pedem que Jesus permaneça com eles e dizem, enfim, de modo comovente, à Samaritana: Já não cremos mais pelas tuas palavras, de modo indireto; nós mesmos vimos, ouvimos, tocamos, experimentamos que Este é o Salvador do mundo!

Nunca esqueça, viu meu Leitor querido: o cristianismo nasce e se alimenta constantemente de uma experiência viva, pessoal, sempre nova, sempre criativa e sempre apaixonante e transformadora com a bendita Pessoa de Jesus de Nazaré, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Filho eterno do Pai, Cristo de Deus, nosso Salvador amado!

- Jesus meu, Jesus nosso,
Salvador bendito!
Obrigado pela Tua Palavra,
Obrigado pela Salvação,
Obrigado pela esperança plantada em nossos corações!

Olha benigno para os catecúmenos da Igreja,
aqueles que se preparam para o Batismo no Espírito,
na próxima Páscoa!
Que bebendo da Água viva que Tu somente nos dás,
possam viver já agora na Vida eterna,
possam fazer jorrar para outros esta bendita Água de Vida
e possam um dia, no Teu Dia, viver essa Vida para sempre!

Jesus, dá-nos a nós também, já batizados,
o que para eles, os catecúmenos, estamos suplicando!
A Ti a glória, ó Bendito,
hoje, na Igreja,

e pelos séculos dos séculos. Amém.

POR: DOM HENRIQUE SOARES DA COSTA